Piso Salarial do Magistério: Faça Valer seu Direito! A Hora é Agora
Fonte: CUT - Central Única dos Trabalhadores
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Postado por Paulo Lima às 16:44 1 comentários
Marcadores: Educação, Utilidade Pública
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A imprensa brasileira teve momentos da historia do país em que desempenhou papel determinante. Basta recordar o peso que teve nas mobilizações de desestabilização que levaram ao golpe de 1964, em que jornais como O Estado de Sao Paulo, a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, entre outros, tiveram o papel, pela primeira vez, de condutores ideológicos e políticos das forcas opositoras.
Setores da imprensa tiveram também um papel positivo, na campanha das diretas, quando outros tentavam esconder a amplitude do movimento e seu verdadeiro significado.
Assistimos hoje à decadência generalizada dessa mesma imprensa, que martela, cotidianamente, praticamente de forma total e monótona, ataques contra o governo Lula, logrando, no entanto, que apenas 5% da população rejeite o governo, enquanto mais de 80% o apóie. Nunca a imprensa brasileira esteve tão distante e contraposta à opinião do povo brasileiro. Daí seu isolamento e decadência, pelo menos sob sua forma atual.
As organizações Globo, que só possuiam um jornal, sem nenhuma importância, no Rio, antes do golpe, tiveram na ditadura sua grande alavanca, mas, ao mesmo tempo, o golpe insuperável de falta de credibilidade. Ficaram com a marca da ditadura, por mais que tentassem se reciclar, importando colunistas, usando a audiência da televisão para tentar conseguir mais público.
Atualmente dispõe de um trio que atenta contra qualquer credibilidade, que dá a tônica do jornal: Merval Pereira, Ali Kamel e Miriam Leitão. Todos os três se caracterizam por serem as vozes do dono, por sua postura propagandística, sem nenhum interesse no que dizem, nem brilho ou criatividade no que escrevem. São funcionários burocráticos da empresa, que exercem, da maneira que conseguem, seu burocrático papel de opositres, buscando catar supostas fraquezas do governo, que é seu único objetivo.
Nenhum tipo de análise, nenhuma nuance, nenhuma idéia. Para um jornal que precisaría desesperadamente de credibilidade, eles são um tiro no pé, uma confirmação da falta de credibilidade do jornal. O resto do jornal – das manchetes de primeira página às colunas de notícias – padece desse freio da rígida linha editorial, fazendo um jornal sem graça, sem interesse, sem repercussão.
No Rio de Janeiro, o conjunto dos órgãos da empresa, mesmo atuando fortemente a favor de algum candidato, perdem sempre. Lula ganhou nas duas últimas eleições no Rio; os Garotinhos, Sergio Cabral, Paes, mesmo Cesar Maia, se elegeram sem o apoio do jornal, que os atacava. Hoje, contra a vontade majoritária da grande maioria dos brasileiros, ficam de novo, acintosamente, na contramão da opinião do povo e do país, incluído claramente o povo do Rio de Janeiro, que sabe separar programas de diversão que lhe gosta ver, das inverdades que diz o jornal e os noticiários de rádio e televisão da Globo.
Diminuem sua tiragem, perdem público abertamente para a internet, para os jornais gratuitos, para os jornais populares vendidos. Melancolicamente, se arrasta o jornal, na fúria antilulista, sem repercussão política alguma.
O Estadão sempre foi o jornal conservador por excelência, com certa discrição, boa cobertura internacional, posições claramente direitistas. Conforme foi perdendo público para a FSP, que aparecia mais atraente para os jovens, mais ligada à oposicao à ditadura, tratou de rejuvenescer. Como jornal mais organicamente ligado às entidades empresariais, tem uma avaliação mais equilibrada da política econômica, valorizando seus avanços, no marco das críticas tradicionais do liberalismo dos “gastos excessivos do Estado”.
Além do papel do Estado na economia, suas maiores preocupações e críticas ao governo são na política internacional. Sua predileção, em tudo e por tudo, com os EUA, fica ferida com as alianças com os países do Sul do mundo e com os da América Latina em particular. A política externa soberana do Brasil os incomoda profundamente, transformando-se num dos temas mais usuais e violentos dos editorais.
O outro são os movimentos sociais, em particular o MST, que causa ojeriza ao Estadão, pela defesa intransigente do direito à propriedade privada, pilar do sistema capitalista. (O jornal foi praticamente o órgão oficial das passeatas de preparação do golpe de 64, na defesa da “liberdade, da família e da propriedade”, valores aos quais continua fiel.) A liberdade, que inclui centralmente a de “imprensa” (privada, diga-se), protagonizada pela SIP – Sociedade Interamericana de Prensa -, órgão da Guerra Fria, cenário a que o jornal, rançoso, ainda se sente apegado. Os editoriais, sempre, e atualmente Dora Kramer, são os momentos mais patéticos do jornal, saudoso da Guerra Fria.
A FSP é o jornal que mais teve oscilações de imagem. Era um jornal sem nenhum peso até o golpe e mesmo durante boa parte da ditadura militar. O Estadão era o grande jornal de São Paulo. A FSP apoiou ativamente a preparação do golpe militar, sua realização e a instauração da ditadura, cumpriu tudo o que a ditadura determinava, com noticiários que escondiam os sequestros, desaparecimentos, execuções, publicando as versões oficiais, emprestando carros da empresa para a Oban.
Foi ao longo dos anos 80, quando levou Claudio Abramo do Estadão, que a FSP, pela primeira vez, ganhou prestígio, buscando espaço próprio na oposição liberal à ditadura. Pretendeu ser o órgão da “sociedade civil” contra o “Estado autoritário”, conforme a ideología hegemônica na oposição, advinda da teoria do autoritarismo de FHC. (A FSP tirava, todo ano, uma foto no teto do seu prédio na Barão de Limeira, com os que ela consderava os representantes da “sociedade civil”, de empresários a líderes sindicais, como que para expresar físicamente esse vínculo organizado com os setores que se opunham, em graus distintos, à ditadura.)
Consolidou essa imagen emprestando suas páginas para uma certo pluralismo, com um cronista semanal – Florestan Fernandes, Marilena Chaui, entre os mais conhecidos – do PT, e distintos políticos, intelectuais e líderes sociais escrevendo na sua página de opinião.
Desde a eleição de FHC, entrou em decadência, perdendo totalmente a credibilidade que o diferenciava. Colunistas com vínculos pessoais com os tucanos, como Clovis Rossi, Eliane Catanhede, outros, decadentes, como Jânio de Freitas, se arrastam melancolicamente na decadência geral do jornal, o que mais despencou na tiragem e o que mais se transformou nas duas últimas décadas. O filho do Frias pai conduz o jornal pelo abismo da intranscendência e do rancor, se parecendo cada vez mais com a Tribuna da Imprensa da época de Carlos Lacerda.
A Veja se assume, grotescamente, como o Diario Oficial da extrema direita, com paquidermes como colunistas, sensacionlismo de capa, projetando-se como má espécie de bushismo brasileiro. Com dificuldade para conciliar sua imagem de revista de generalidades com esse papel de brucutu da imprensa nacional, foi perdendo aceleradamente tiragem, o que aumenta a crise financeira que levou a empresa a pendurar-se em capitais externos.
Poderia ser menos afetada pela crise generalizada da imprensa, por ser uma revista semanal. Mas a brutalidade da sua orientação política a fez incorporar-se de cheio nessa queda. Terá papel ainda mais truculento na campanha eleitoral, jogando tudo para tentar barra a vitória do governo, esperando-se os golpes mais sujos da campanha da empresa dos Civita.
No conjunto, o cenário da imprensa brasileira – com a única exceção da Carta Capital, entre as publicações diárias e semanais – é deprimente e decadente. Uma vitória de Dilma – que os apavora, seria ficar mais quatro ou oito anos nessa posição de dirigentes opositores -, trará dilemas difíceis para essas empresas. É possível que uma ou outra busque reciclar-se para adaptar-se a novos tempos, em que inclusive tem que contar com o fim de toda uma geração de políticos estreitamente associados a ela, como FHC, Serra, Jereissatti, etc. Isso, associado a uma intensificação da crise econômica das empresas, deve colocar dilemas cruciais para órgãos que assumiram atitudes suicidas, contra a vontade expressa da maioria do povo brasileiro e pagam preço caro por isso.
* Emir Sader é cientista político
Fonte: Caros Amigos
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Postado por Paulo Lima às 18:27 0 comentários
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Artigos Relacionados:Como pano de fundo das pressões dos EUA para impor sanções que impeçam o Irã de desenvolver seu programa nuclear está o veto imperial visando intimidar todos os países que dão passos concretos para romper a dependência tecnológica. Esta dependência funciona como um vergonhoso muro que bloqueia o desenvolvimento soberano de inúmeros países emergentes, mas com desdobramentos planetários. A pressão contra o Irã também atinge o Brasil.
Por Beto Almeida *
A realização, nesta semana, da Cúpula Internacional para a Segurança Nuclear , supostamente para afastar o perigo de um confrontação nuclear mundial, reveste-se de farsa discursiva e prática. A participação de Lula neste evento convocado pelos EUA foi interessante. Como de hábito, Lula usou uma imagem simples e fortemente comunicativa para explicar o que anda ocorrendo nesta área nuclear, mesmo quando grandes potências assinam acordos e mais acordos de desarmamento, há mais de 40 anos, teoricamente de redução de ogivas. De vez em quando, disse Lula, eu jogo fora remédios velhos e vencidos....
Não há, rigorosamente, qualquer esforço sincero e comprovado de que as grandes potências atômicas estariam a zelar pela paz mundial, que não existe, e para afastar o perigo de um confrontação nuclear de conseqüências imprevisíveis, até o momento. Assim, é preciso extrair o que de fato está em jogo nestes grandes encontros internacionais. Tal como aquela Conferência do Clima de Copenhaguen, no final do ano passado, foi um grande fiasco, não resultando em qualquer acordo prático que levasse as potências poluidoras a deixar de emporcalhar o mundo, esta Cúpula da Segurança Nuclear também não trouxe qualquer tranqüilidade ou segurança ao mundo. Pudera, o próprio anfitrião, o presidente Barak Obama, acaba de autorizar o Congresso dos EUA a ampliar o orçamento da indústria bélica. E vale lembrar sempre: o orçamento militar dos EUA, sozinho, supera o orçamento de todos os demais países do mundo, somados. Isto mesmo, somados. Foi o que destacou Vladimir Puttin ao ser indagado por dileto repórter da BBC se os acordos militares entre Rússia e Venezuela não causariam preocupação em Washington....
TNP tem dois pesos e duas medidas
Assim sendo, além de revelar o quão hipócrita é o pronunciamento de Barak Obama indicando “preocupação” pela Venezuela estar montando, pela primeira vez em sua história, uma legítima capacidade de defesa que lhe permita não ser assaltada em suas imensas riquezas energéticas, como ocorre hoje com o Iraque e o Afeganistão - não há paranóia venezuelana nisto - é preciso entender que reuniões de cúpula como esta estão dirigidas, entre outros objetivos, a manter o imenso abismo existente entre o seleto grupo de países nucleares e os demais. Mas, com medidas práticas concretas, aí sim, dirigidas a desestimular, intimidar ou a punir, seja com sanções econômicas ou militares, aqueles países que ousem pretender uma independência tecnológica para alcançar o domínio da energia nuclear. E esses países, como é o caso Irã, são transformados em ameaça humanidade. Israel possui ogivas nucleares, mas , para demonstrar o grau de hipocrisia que preside tais reuniões de cúpulas, sequer é interpelado, advertido, admoestado. Todas as hipóteses de sanções são dirigidas exclusivamente ao Irã.
É correta a posição do Brasil ao reivindicar que a comunidade internacional , sobretudo os possuidores do porrete nuclear nas mãos, aprenda a dialogar, a negociar. Ou será admissível adotar-se uma vez mais a opção iraquiana. Inventa-se qualquer mentira e despacha-se para o Irã a terrível máquina de morte dos EUA, já que estão em dificuldades para recuperar algum dinamismo da sua economia.
Mas, ao defender que o Irã tenha direito de desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos, o Brasil toca numa complexa e intrincada caixa de marimbondos. E nisto conta com a compreensão da China que, obviamente, percebe que as ameaças contra o Irã são destinadas a afetar um dos parceiros mais importante do gigante asiático em seu estupendo crescimento econômico enquanto os EUA patinam na recessão.
Turbinas nucleares sequestradas
Vale lembrar que o Brasil já foi objeto de pressões e sabotagens muito similares às que sofre o Irã hoje. Durante a Era Vargas, que os neoliberais quiseram e ainda querem demolir, o Brasil comprou turbinas atômicas da Alemanha. Foi em 1952. Era parte da estratégia do Almirante Álvaro Alberto, idealizador do Programa Nuclear Brasileiro, para que o país tivesse condições de alcançar desenvolvimento tecnológico soberano nesta área estratégica. As pressões chegaram ao ponto extremo. As turbinas, prontas para serem embarcadas no Porto de Hamburgo para o Brasil, foram seqüestradas por um comando militar da OTAN, sob ordens dos EUA. Também sabemos como foram intensas as pressões norte-americanas contra o governo Geisel para que não firmasse o Acordo Nuclear com a Alemanha na década de 70. Agora, o governo iraniano denuncia que um de seus mais insignes cientistas nucleares foi seqüestrado a mando dos EUA. Definitivamente, este mundo para é para meigos....
O tema não é segurança mundial mas segurança dos países nucleares de que não perderão a condição de domínio exclusivo destas tecnologias e, como ela, o poder de impor dependência tecnológica ao mundo. Que não surjam outros concorrentes. Foi o que disse certa o sinistro Henry Kissinger, ex-secretário de estado dos EUA, referindo-se ao Brasil: “não permitiremos que surja um novo Japão abaixo da linha do Equador”. A discussão não é nada nova, apenas vem revestida com ingredientes atuais como a difusa ameaça terrorista, agitada como justificativa para a “comunidade internacional” puna os países rebeldes.
Romper a vassalagem tecnológica
Foi também na Era Vargas, quando da criação da Petrobrás, que o Brasil sofreu uma enorme pressão para que pretendesse ter independência na área da energia do petróleo. Até anúncios foram publicados nos jornais brasileiros pelas transnacionais para que decretar: “está provado que no Brasil não há petróleo” e , portanto, seria uma loucura criar a Petrobrás. Um dos jornais que publicou estas orientações imperiais, o Estado de São Paulo, hoje está aí a editar posições contra a revitalização da Telebrás, contra a nacionalização dos fertilizantes, ou simplesmente pedindo que a TV Brasil seja extinta, apesar de sua existência estar prevista na Constituição.
Além do caso do petróleo, vale citar também o exemplo da indústria aeronáutica. O desenvolvimento de uma indústria aeronáutica de porte pelo Brasil parecia ser o resultado lógico e natural da histórica conquista tecnológica iniciada por Alberto Santos Dumont. No entanto, após a criação da Embraer, a mentalidade presidida pela vassalagem tecnológica e que acreditava que o Brasil não podia mais ou que não tinha o direito a uma posição soberana no cenário aeronáutico internacional, optou pela privatização da estatal. Recentemente, a Venezuela apresentou proposta de compra de 150 aviões Tucanos da Embraer. Quando a transação estava por ser concluída, a dependência tecnológica se impôs: os EUA vetaram a venda, alegando que os Tucanos contam com tecnologia norte-americana e que não poderiam ser vendidos à Venezuela de Hugo Chávez.. Aliás, era um simples computador de bordo que poderia perfeitamente ser desenvolvido aqui mesmo se o CPQD não tivesse sido demolido no vendaval da privataria. Resultado: a Venezuela comprou aviões similares da China e a Embraer, sem encomendas, demitiu 4800 trabalhadores.
Uma nova ordem internacional
A dependência tecnológica que querem impor ao Irã desdobra-se como pressão também contra o Brasil, possuidor de uma das mais eficientes e cobiçadas tecnologias de centrifugas nucleares. A pressão alinhavada na Cúpula da Segurança Nuclear destina-se a pressionar também os países emergentes a firmar o aditivo ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, pelo qual, a Agência Internacional de Energia Atômica poderia fazer “inspeções”, sem aviso, a quaisquer instalações onde haja desenvolvimento de experiências de natureza nuclear. Faz bem a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Brasil em alertar para os riscos que estão embutidos por trás destas grandiloqüentes proclamações sobre segurança nuclear.
Acerta o presidente Lula quando afirma que Brasil e China estão na obrigação de lutar por uma nova ordem internacional. Acertam os países do IBAS quando firmam acordo para fabricação de satélite próprio superando grave vulnerabilidade tecnológica que marca o setor. Acertam os países do BRIC quando marcam presença por outras áreas do planeta, por exemplo, por meio dos acordos para o desenvolvimento nuclear que Rússia está propondo implementar com Venezuela e Argentina. Erra o jornal Correio Brasiliense, incapaz de compreender a transcendência histórica da reunião realizada em Brasília, desinformando sobre o conteúdo e magnitude dos acordos estatais firmados, preferindo dar destaque inconcebível aos problemas que o encontro causou ao trânsito e trazendo como manchete um improvável desfecho para a paroquial crise da corrupção no Distrito Federal, que traumatizou o próprio diário capitalino, tão beneficiado pela panetônica publicidade do Palácio do Buriti. Erra também o Green Peace em seu protesto estudantil - certamente apoiado por instituições alimentadas pela indústria petroleira e da Realeza Financeira Britânica - sem perceber que no Itamaraty estavam reunidos pelo menos dois dos países que mais se esforçam e contribuem para um novo padrão energético internacional mais limpo. O Brasil, com a biomassa e a hidroeletricidade, e a China, país que líder nos investimentos e na produção de equipamentos para a energia solar.
Ou seja, não é difícil usar o perigo real de uma conflagração nuclear para esconder uma série de iniciativas e de arranjos visando manter o mundo marcado pela dependência tecnológica que prejudica a imensa maioria dos povos. Sobretudo, quando certa mídia não quer revelá-los.
* Fonte: Carta Maior
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Marcadores: Política, tecnologia
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Silvana Lucena dos Santos²
Os diversos tipos de leishmaniose representam um grave problema de Saúde Pública, principalmente quando levamos em consideração a sua ampla distribuição no mundo, seu amplo espectro de manifestações clínicas, o envolvimento de um grande número de espécies de Leishmania e de vetores, hospedeiros e reservatórios animais, bem como as dificuldades para o diagnóstico da doença e o tratamento daqueles que estão doentes.
No Brasil, tanto a leishmaniose tegumentar americana (LTA), assim como a leishmaniose visceral ocorrem em todas as regiões do País. Em 2008, foram notificados 35.084 casos de leishmaniose tegumentar americana e 2.801 de leishmaniose visceral no Brasil.
A forma tegumentar da doença se caracteriza por lesões na pele e/ou nas mucosas, podendo elas serem únicas ou múltiplas, abrangendo desde formas pouco características à lesões de pele discretas até formas com ulcerações que abrangem as mucosas da face, cuja evolução é lenta e produzem metástases e recidivas de tratamento difícil. Por sua vez, a leishmaniose visceral é uma doença sistêmica que compromete principalmente o baço, o fígado e a medula óssea, produzindo principalmente hepato-esplenomegalia, anemia e imunodepressão.
A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) apresenta-se em fase de expansão geográfica. Nas últimas décadas, estudos epidemiológicos acerca da LTA têm sugerido mudanças no comportamento epidemiológico da doença. Inicialmente considerada zoonose de animais silvestres que acomete ocasionalmente pessoas em contato com florestas, a LTA pode ocorrer em zonas rurais já praticamente desmatadas, bem como em regiões próximas as cidades. Observa-se a coexistência de um duplo perfil epidemiológico expresso tanto pela manutenção de casos oriundos dos focos antigos, ou de áreas próximas a eles, como pelo aparecimento de surtos associados a fatores decorrentes do surgimento de atividades econômicas como garimpos, expansão de fronteiras agrícolas e extrativismo, em condições ambientais altamente favoráveis à transmissão da doença.
Ao analisar a evolução da LTA no Brasil, observa-se uma expansão geográfica, sendo que, no início da década de 80, foram registrados casos em 19 estados e, nos últimos anos foram registrados casos da doença em 25 estados.
Diferentes espécies de parasitos estão envolvidos no ciclo das leishmanioses tendo sido identificados até o momento 21 espécies capazes de infectar o homem em todo mundo. No Brasil, os principais protozoários causadores da leishmaniose tegumentar são:
· Leishmania Viannia braziliensis, que é o agente da leishmaniose cutânea e mucocutânea, e que ocorre em todas as regiões brasileiras. Está presente nos ciclos peridomésticos da LTA e associa-se a uma grande variedade de espécies de flebotomíneos podendo infectar diversos animais domésticos e silvestres.
· Leishmania amazonensis, agente de leishmaniose cutânea e da leishmaniose cutânea-difusa, encontram-se nas florestas da região amazônica, na Bahia, Minas Gerais e Goiás.
· Leishmania Viannia guyanensis agente de leishmaniose cutânea, ocorre ao norte da Bacia Amazônica.
· Leishmania chagasi, agente causadora da leishmaniose visceral que ocorre na região nordeste está se expandindo para as regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Embora as estratégias para o controle da leishmaniose possam variar de acordo com a situação epidemiológica local, se faz necessário implementar e fortalecer ações de controle de vetores que envolvam o sistema de vigilância epidemiológica e entomológica que auxiliem no diagnóstico dos casos suspeitos e no tratamento precoce dos casos confirmados, bem como na identificação do agente etiológico circulante na área.
Particularmente, no estado do Ceará, é necessário que se entendam melhor os fatores de risco e as dinâmicas de transmissão da leishmaniose tegumentar americana, bem como torna-se fundamental encorajar novos estudos sobre a atual situação do controle da doença no estado. O estreitamento da relação entre os gestores municipais da saúde, notadamente na região do Cariri e a comunidade científica, é essencial para definição das prioridades de pesquisas e de novas abordagens para o controle da LTA no sul do Ceará. Dentre os municípios que compõem a região do Cariri, as cidades de Barbalha e Crato apresentam as maiores incidências de Leishmaniose Tegumentar Americana no Estado, onde dados da Secretaria Estadual de Saúde indicam uma incidência de 495 casos por 100.000 habitantes em 2009 , além de que nos últimos anos tem se observado um aumento preocupante do número de casos da doença em área urbana.
Com a finalidade de auxiliar no diagnóstico clínico da leishmaniose tegumentar, Montenegro, em 1926, introduziu na pratica médica um teste realizado por intermédio da injeção intradérmica de uma suspensão de promastigotas mortas de Leishmania sp. No início de sua utilização, as normas para pesquisa clínica e laboratorial não estavam claramente estabelecidas quanto aos seus aspectos éticos, nem quanto a avaliação e qualidade, que há muitas décadas, caiu no mercado e foi “consagrada pelo uso”.
Atualmente, quanto ao aspecto de diagnóstico, o antígeno ou reativo de Montenegro vem sendo utilizado amplamente no Brasil e no mundo, como teste preliminar indicativo de leishmaniose tegumentar americana, sendo ele o exame complementar mais sensível e específico disponível para a Rede de Saúde em diversos países, apresentando resultados positivos em 86,5 a 97,6% dos casos de LTA. A realização do teste consiste na inoculação de 0,1ml do antígeno na intraderme no antebraço, a aproximadamente 2,5 cm abaixo da fossa antecubital e a sua leitura é feita de 48 a 72 horas após o momento da inoculação. O resultado é considerado positivo quando houver uma enduração ou nódulo, no local da aplicação, igual ou superior a 5mm. Contribuem para a sua ampla utilização, sua alta sensibilidade e especificidade, a facilidade de aplicação, o baixo custo do teste e a não exigência de equipamentos para sua utilização. Este fato associado ao predomínio da LTA em áreas pobres do Brasil, nos leva acreditar que em muitas regiões, a intradermorreação de Montenegro é a única ferramenta disponível para o diagnóstico da LTA.
Devido a essas motivações e necessidades, assim como pela dificuldade de obtenção junto a Fundação Oswaldo Cruz – Biomanguinhos, o antígeno de Montenegro passou a ser produzido regularmente pelo Laboratório de Patologia Experimental do Curso de Medicina no Cariri da Universidade Federal do Ceará (UFC) como forma a atender uma enorme demanda observada no ambulatório de leishmanioses. O antígeno de Montenegro é produzido a partir das Cepas 126 de Leishmania amozonensis, cedidas pelo Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) em Fortaleza, mantidas em meio Schneider enriquecido ou RPMI 1640 por 12 a 14 dias para crescimento, emulsionadas posteriormente em solução salina a 12%, centrifugadas a 2500 r.p.m por 15 minutos, onde o sedimento resultante no processo é ressuspenso em solução salina a 12%. Toda a etapa de ressuspensão é repetida por mais duas vezes e o sedimento da última lavagem é diluído em solução salina a 8,5%, conforme o preconizado pelo protocolo adaptado de Pessoa & Martins(1978). Através do processo de sonicação ou fragmentação sucessiva de culturas de Leishmania amazonensis, são produzidas suspensões antigênicas, contendo antígenos solúveis, semi-solúveis e particulados, que são ajustados através contagem do número de leptomonas em câmara de Neubauer e sua posterior diluição, quando necessário, para atingir a concentração de 10 milhões de leptomonas por ml. A suspensão é conservada em estufa a 56° C por um período de quatro dias, sendo agitada três vezes ao dia. Posteriormente adicionado-se à suspensão 0,4 % de ácido fênico do volume total, necessário a etapa de conclusão da produção do antígeno de Montenegro.
Considerando a média anual de 35 mil casos notificados da doença/ ano em todo Brasil, sendo que 1,5% desses casos ocorreram somente no Cariri, poderíamos estimar que, ao menos, um número equivalente de testes deveriam ser realizados regularmente nessa região.
¹. Biólogo. Mestrando em Ecologia e Recursos Naturais (UFC). Servidor Técnico do Laboratório de Patologia Experimental do Curso de Medicina no Cariri da Universidade Federal do Ceará – UFC.
². Graduanda em Enfermagem da Faculdade Leão Sampaio. Assistente em Administração do Curso de Medicina no Cariri da Universidade Federal do Ceará – UFC.
Referências Bibliográficas
1.FORATTINI, O. P. – Novas observações sobre a biologia de flebótomos em condições naturais (Díptera, Psychodidae). Arq. Hig., S. Paulo, 25:209-15, 1960.
2.GOMES, A. de C. et al. Aspectos ecológicos da leishmaniose tegumentar americana. 1. Estudo experimental da freqüência de flebotomíneos em ecótopos artificiais, com referência especial a P. intermedius. Rev. Saúde Pública, 14: 540-56, 1980.
3.GOMES, A. de C. et al. Aspectos ecológicos da leishmaniose tegumentar americana. 2. Ecótopos artificiais, com abrigo de P. intermedius e observações sobre a alimentação e reprodução sob influência de fatores físicos e naturais. Rev. Saúde Pública, 16: 149-59, 1982.
4.GOMES, A. de C. et al. Aspectos ecológicos da leishmaniose tegumentar americana. 3. Observações naturais sobre o rítmo diário de P. intermedius em ambiente florestal e extraflorestal. Rev. Saúde Pública , 17:23-30,1983.
5.GONTIJO, Célia Maria Ferreira and MELO, Maria Norma. Leishmaniose visceral no Brasil: quadro atual, desafios e perspectivas. Rev. bras. epidemiol. [online]. 2004, vol.7, n.3, pp. 338-349. ISSN 1415-790X.
6.NERY-GUIMARÃES, F. & BUSTAMANTE, F. M. de – A aplicação domiciliária de DDT como base da profilaxia das leishmanioses. Estudo de um foco de leishmaniose muco-cutânea cinco anos depois da aspersão periódica com aquele inseticida. Rev. bras. Malar., 6:125-30, 1954.
7.RANGEL, E.F. et al. On the sandfly of a focus of cutaneous leishmaniasis in Aquiraz municipality, Ceara State, Brazil. Mem.Inst. Oswaldo Cruz , 84 (Supl 2): 131,1989.
8.RANGEL, Elizabeth Ferreira; SOUZA, Nataly A. de; WERMELINGER, Eduardo D. and BARBOSA, André F.. Infecção natural de Lutzomyia intermedia Lutz & Neiva, 1912, em área endêmica de leishmaniose tegumentar no Estado do Rio de Janeiro. Mem. Inst. Oswaldo Cruz [online]. 1984, vol.79, n.3, pp. 395-396. ISSN 0074-0276.
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